Com sexto maior eleitorado, Rio Grande do Sul é destino estratégico para campanhas presidenciais - Agora Já -

Com sexto maior eleitorado, Rio Grande do Sul é destino estratégico para campanhas presidenciais



Embora o papel do Estado na corrida divida opiniões entre especialistas, conquistar os eleitores gaúchos indecisos pode ser um diferencial

Foto: Agendas dos presidenciáveis no Estado podem impactar campanhas dos postulantes ao Palácio Piratini Foto : Fabiano do Amaral/ CP Memória
4 de setembro de 2026

Há 8.526.233 eleitores aptos a votar no Rio Grande do Sul. Esse montante representa o sexto maior colégio eleitoral do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. São mais de oito milhões de votos, que, em uma disputa acirrada, podem ser decisivos para o resultado.

Não à toa, a campanha presidencial chegará com força em terras gaúchas nos próximos dias. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca reeleição, estará no Estado no dia 11 de setembro. O senador Flávio Bolsonaro (PL) esteve na quarta-feira (2) em um comício em Porto Alegre.

Já o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) esteve na Expointer no domingo (30). A expectativa é de que o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) também participe do evento no próximo sábado (5). Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP) também visitaram o Estado.

A mobilização tem um motivo claro: conquistar um eleitorado expressivo. Uma missão, que pode render ainda mais frutos, considerando os índices de indecisão entre os eleitores. Segundo pesquisa realizada pela Genial/Quaest, em julho, sobre as intenções de voto dos gaúchos à presidência da República, 19% ainda não sabiam em quem votar. Os números são referentes ao cenário estimulado, quando uma lista de candidatos é apresentada aos entrevistados. O levantamento foi feito entre os dias 24 e 28 de julho, com as entrevistas de 1.104 eleitores do RS. A margem de erro é de três pontos percentuais e o nível de confiança da pesquisa é de 95%. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número BR-01871/2026 E RS-04790/2026

“O voto dos indecisos, certamente, é o suficiente para pesar a balança para um lado ou para o outro”, afirma o cientista político Augusto Neftali de Oliveira, que é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do (Pucrs).

Relevância histórica nas decisões nacionais

“O Rio Grande do Sul, juntamente com Minas Gerais, são os dois principais Estados que a gente pode chamar de definidores da eleição, porque são os maiores Estados nos quais a diferença entre a candidatura de Lula e de [Flávio] Bolsonaro ocorre com margens mais estreitas”, explica Oliveira. “Os dois [RS e MG] são, de fato, fortemente disputados.”

“Se pensarmos de um ponto de vista histórico, o Estado sempre foi bem ativo na política nacional com inúmeras candidaturas à presidência e à vice-presidência.” Em 2018, inclusive, havia gaúchos em ambas as chapas com melhor desempenho a corrida presidencial. Os porto-alegrenses Hamilton Mourão (Republicanos), que saiu vitorioso junto a Jair Bolsonaro (PL), e Manuela d’Ávila (PSol) disputaram a vice-presidência da República.

Influência em declínio

A importância do eleitorado sul-rio-grandense para o embate nacional, contudo, não é consenso entre os especialistas. Para o cientista político Rodrigo Stumpf González, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o papel decisivo do Estado nas eleições presidenciais vem diminuindo a cada década.

“Nós tínhamos lideranças políticas com um grau de influência nos processos eleitorais nacionais. Isso já não acontece. Do ponto de vista político, perdemos espaço nas articulações nacionais, que, hoje, se concentram nas regiões Sudeste e Nordeste. Do ponto de vista do eleitorado, nós encolhemos um pouco”, explica.

Até 2022, o Rio Grande do Sul reunia a quinta maior massa de eleitores do País. Em 2026, o Paraná assume o posto, com 8.609.026 votantes. As menores taxas de natalidade, o lento crescimento econômico do Estado e a falta de atratividade para imigração podem, de acordo com o pesquisador, estar entre as razões para a diminuição no eleitorado.

Segundo González, embora o Estado tenha demonstrado uma inclinação para o conservadorismo nos últimos pleitos, os votos gaúchos têm tido uma influência relativamente neutra no resultado final. “Existe uma divisão que tem se mantido.”

“Ou seja, o eleitor gaúcho não muda muito de posição de uma eleição para a outra. Consistentemente existem dois grandes blocos, um vota mais à esquerda, outro vota mais à direita, e existe um número pequeno que, digamos, ora vai para um lado, ora vai para o outro”, completa.

Dicotomia de forças

Embora acirradas, as últimas disputas presidenciais, de fato, mantiveram semelhanças no Estado. Em 2022, quando enfrentou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula saiu em desvantagem entre os eleitores gaúchos em ambos os turnos. Na etapa decisiva, foram pouco mais de 800 mil votos de diferença. Mesmo assim, a vitória ficou com o petista. Esse cenário já havia ocorrido em 2018, quando Fernando Haddad (PT) enfrentou Jair Bolsonaro.

Antes mesmo da ascensão do bolsonarismo, o Rio Grande do Sul já era palco para um cenário de polarização entre forças opostas. Desde o início dos anos 2000, em eleições presidenciais, o Estado nem sempre acompanha os resultados nacionais. E, nesse cenário, a esquerda vem sendo desfavorecida entre os eleitores gaúchos.

Em terras gaúchas, o bloco saiu vitorioso em ambos os turnos apenas em 2002, quando Lula teve vantagem contra José Serra (PSDB) nas duas etapas do pleito e chegou à presidência.

Em 2006, por outro lado, Geraldo Alckmin – que, na época, era filiado ao PSDB – angariou mais apoio nas urnas do que seu adversário Lula, na primeira e na segunda rodada de votações. No segundo turno, foram cerca de 600 mil votos de diferença entre os dois.

Alckmin, entretanto, não saiu vitorioso em território nacional. Hoje, o atual vice-presidente integra o PSB e busca reeleição ao lado de Lula.

Em 2010, durante o embate entre Dilma Rousseff (PT) e Serra, a petista, que construiu a carreira política no Rio Grande do Sul, deu a largada em vantagem no Estado, mas ficou atrás no segundo turno. Mesmo assim, ela saiu vitoriosa do pleito.

O cenário se repetiu em 2014. Dilma teve vantagem sobre Aécio Neves (PSDB) no primeiro turno, quando recebeu 112.428 votos a mais entre os gaúchos. No segundo turno, o tucano saiu na frente, com 3.455.214 frente aos 2.998.545 da petista. De qualquer maneira, Dilma foi reeleita.

A tendência ao conservadorismo nos últimos pleitos também é uma característica dos demais estados do Sul do Brasil. Desde 2006, a esquerda não leva vantagem no Paraná e em Santa Catarina.

A eleição do cansaço

“Ganhos passados não garantem ganhos futuros”, afirma González. Muito mais do que uma estratégia para angariar votos para as próprias campanhas, as vindas ao Rio Grande do Sul desempenham um papel fundamental para ampliar o apoio aos candidatos da chapa, que concorrem ao governo do Estado, ao Senado Federal, à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa.

“Não é simplesmente uma busca de votos para eles, mas uma tentativa de fortalecer as suas respectivas chapas de apoio, que vão ter uma importância depois, lá adiante, seja se eles [os presidenciáveis] ganham o governo ou se se tornam oposição”, afirma o professor do Departamento de Ciência Política da Ufrgs.

Além disso, as campanhas presidenciais no Estado visam a driblar um obstáculo significativo: a abstenção. “O desafio é justamente alcançar esse eleitor gaúcho que está afastado das opções. É atrair o eleitor gaúcho indeciso para sua candidatura e também evitar que esse eleitor indeciso acabe se somando aos votos do adversário”, complementa Oliveira.

Entre os pleitos de 2014 e 2022, a quantidade de eleitores gaúchos em abstenção nas urnas passou de 16,79% para 19,78%. “Esse processo de polarização, ele já tem provocado um certo cansaço na população”, finaliza González. De acordo com ambos os especialistas, mobilizar o eleitorado para ir votar é o grande desafio de 2026.

Fonte : Correio do  Povo 

Foto : Fabiano do Amaral/ CP Memória


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