Atual presidente conseguiu virada inédita após reformulação da campanha no segundo turno e driblou tendência global de voto em oposição
Foto: Presidente surpreendeu após perder o primeiro turno.
MIGUEL SCHINCARIOL / AFP A gangorra eleitoral pendeu para a esquerda e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil. Será a quarta vez que irá comandar os destinos do país — e a mais espetacular, porque foi de virada. Nunca antes na história brasileira um candidato a presidente havia perdido o primeiro turno e ganhado no segundo. As outras eleições de Lula foram em 2002, 2006 e 2022. O veredito foi matematicamente confirmado por volta das 21h10min de domingo (25). A vitória aconteceu em cima de Flávio Bolsonaro (PL).
A história de Lula, 80 anos, se confunde com a do Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Nordestino que migrou para São Paulo, metalúrgico de profissão, ele surgiu para a política ao liderar as greves operárias no final dos anos 70, ainda durante o regime militar. Chegou a ser preso na época. Foi deputado federal e acabou derrotado três vezes na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994, 1998), antes de sua primeira vitória, em 2002.
— Eu nunca ganhei eleição no primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno — disse.
Lula permanece no cargo após uma eletrizante campanha contra os maiores adversários que a esquerda já teve em tempos democráticos no Brasil, a família Bolsonaro, herdeiros da maioria dos votos da direita e admiradores confessos da ditadura militar que vigorou no país entre 1964-1985.
Como governante, Lula soube usar o poder dos decretos e nomeações, o que ajudou na sua eleição. Entre as medidas de impacto incluiu o reajuste do piso do Bolsa Família e a antecipação do pagamento do benefício, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a reformulação do programa de renegociação de dívidas (Desenrola) e o início dos trâmites para a distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS.
Do primeiro para o segundo turno também ocorreu uma metamorfose nos apoiadores do presidente, que após anos de marasmo e um susto com a vitória parcial de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições, tomaram as ruas das principais metrópoles em passeatas pró-Lula.
A vitória de Lula contraria uma tendência global de voto contra o governante, o chamado voto anti-incumbente. Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, analisou 21 eleições recentes mundo afora e 17 delas tiveram vitória da oposição. São como plebiscitos que reprovam o gestor. O candidato do PT foi uma exceção nesse panorama.
O oponente de Lula nesta eleição, Flávio Bolsonaro, é mais elegante e menos controverso que o pai, o ex-militar Jair Bolsonaro, que foi eleito presidente da República em 2018 e hoje está condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Conforme a sentença aplicada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ele perdeu a tentativa de reeleição e, inconformado, teria conspirado para impedir a posse de Lula, vencedor das eleições em 2022. Talvez por envergar um figurino menos belicoso, Flávio saiu ganhando no primeiro turno, mas acabou perdendo o pleito na esteira de uma grande mobilização de ruas comandada pelo PT.
A eleição de Lula dificulta a concretização de uma das principais promessas de campanha de Flávio: encaminhar projeto de anistia para o pai, Jair, e mais de 1,4 mil outros condenados pela tentativa de golpe ocorrida entre o final de 2022 e o início de 2023. Seria a sequência de uma série de iniciativas que recentemente levou à aprovação, no Congresso Nacional, da possibilidade de redução das penas dos sentenciados pelo golpe.
O próprio Lula já esteve preso, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi em 2018, no auge da Operação Lava-Jato, que apurava desvios de dinheiro na Petrobras e subornos pagos por empreiteiras a políticos. Ele ficou 580 dias preso numa cela da Polícia Federal. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os processos criminais contra Lula, que teve restabelecidos os direitos políticos e venceu a eleição de 2022.
Como Lula venceu a eleição? A explicação mais plausível, segundo especialistas consultados por Zero Hora, é que os indecisos (um percentual que variava de 10% a 20% na reta final da campanha) se direcionaram a Lula. Assim como foram dele os votos de parte de um contingente de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e quase 6 milhões que não escolheram nenhum dos candidatos disponíveis.
A eleição de Lula veio após uma série de desgastes de Flávio. Ao longo do ano o STF abriu contra ele uma investigação por possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção na produção do filme Dark Horse. O filme teve a maior parte do financiamento bancada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, hoje preso por corrupção e crime organizado. Ele teria enviado R$ 62,9 milhões para a produção da cinebiografia. A suspeita da Polícia Federal é que parte do dinheiro tenha ajudado a sustentar bolsonaristas hoje refugiados no Exterior, como o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e ex-policial federal, cassado por faltar ao serviço.
Lula venceu apesar da intensa campanha que enfrentou pelo fato de seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, responder a três investigações da PF. As apurações miram o suposto tráfico de influência de Lulinha e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal — situação que foi explorada em profundidade pela oposição, nas mídias sociais e nos programas eleitorais obrigatórios.
Outros contratempos decisivos no dia do pleito atrapalharam a intenção de voto no candidato do PT. Em Salvador, 544 ônibus municipais deixaram de circular neste 25 de outubro, no que seria um locaute das empresas de transporte. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) baiano considerou que isso atrapalhou o deslocamento de eleitores e determinou a prisão em flagrante do secretário de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza. Lula ganhou na Bahia no primeiro turno e a paralisação da frota pode ter contribuído para diminuir sua votação no segundo turno. A prefeitura da capital baiana, que controla os ônibus, é comandada por um aliado de Flávio.
Como aconteceram incidentes semelhantes em outros Estados, a coligação liderada por Lula pediu que fosse prorrogada a votação até as 19h. O pedido foi aceito pelo ministro Cristiano Zanin, do STF. A coligação liderada por Flávio também pediu prorrogação da votação, mas em decorrência de chuvaradas que prejudicaram o deslocamento de eleitores, como aconteceu no Rio Grande do Sul. A prorrogação provocou intensa confusão no país.
Outro episódio que certamente contribuiu para diminuir as intenções de voto em Lula é a descoberta de que o magistrado responsável pela condenação dos implicados na tentativa de golpe de 2023, Alexandre de Moraes, tem telhado de vidro. Ele é suspeito de fazer tráfico de influência, porque sua mulher atuou como contratada no Banco Master hoje preso por corrupção e crime organizado. A advogada teria firmado contrato de R$ 131 milhões para defender causas do banqueiro. O caso é investigado pela Polícia Federal.
Lula não tem ligação direta com o caso, mas Moraes é visto como algoz do bolsonarismo e aliado do presidente. Os defensores de Bolsonaro espalharam nas redes sociais memes em que o magistrado e Lula são duas máscaras do mesmo personagem. Pelo jeito, não foi suficiente para tirar os votos do candidato do PT.
Insinuações sobre corrupção não parecem comover o eleitor. As acusações pesam apenas para apoiadores. Cada um crê no seu candidato e acha que o outro é culpado. Dificilmente muda voto, pois em geral as acusações não são novas.
RODRIGO GONZALEZ
Professor de pós-graduação do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Lula conseguiu driblar ainda dois outros fatores. Um deles, a idade. Aos 80 anos, aparentava cansaço para a maratona que os candidatos precisam correr nas eleições, com voz cada vez mais rouca e agilidade menor que a dos adversários, nas redes sociais. Adversários, aliás, que se uniram em críticas a ele desde o início da campanha. Mesmo assim, o carisma lhe garantiu a vitória.
O maior desafio de Lula agora será governar com minoria no Congresso, algo que já aconteceu no atual mandato. O campo conservador fez a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado e também nos Estados. Contará com apoio garantido de apenas 130 deputados federais (num universo de 513), 15 senadores (dentre 81) e cinco governadores dos 27.
No discurso após a vitória, Lula minimizou a desvantagem no parlamento:
— Já tem gente falando que o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está muito conservador. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas — afirmou.
A vitória ainda abre possibilidade para que o petista mantenha ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) mais simpáticos à sua linha ideológica.
Em pronunciamento após a confirmação do resultado, Flávio Bolsonaro (PL) não reconheceu a derrota e disse que irá pedir a anulação da eleição:
— É impossível reconhecer o resultado das eleições do jeito que aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. A gente não está aqui para brincadeira. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo.
Apesar da prorrogação da votação, observadores da cena política nacional ouvidos pela reportagem não acreditam em um tumulto pós-eleitoral.
Pode ajudar o fato de Flávio Bolsonaro parecer mais moderado que o pai dele, o Jair. Menos polêmico. O que se espera é que os candidatos respeitem as liturgias republicanas, voltem a ser educados com os adversários. Que o perdedor aceite e que o ganhador se dirija a todos os brasileiros, não apenas à metade que o elegeu. Que a transição seja tranquila, enfim.
FERNANDO SCHÜLER
Filósofo e cientista político do Insper.
O cientista político Rodrigo González também não acredita em badernaço:
— Podem ocorrer protestos, mas creio que menores, pois os militares deixaram claro que não vão embarcar em uma aventura. E se ganhar o Lula, terá a autoridade para o uso da PRF. Com as condenações do 8 de janeiro haverá um cálculo de risco que atua contra mobilizações massivas.
Gaudêncio Torquato, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), escritor, jornalista e consultor de política, lembra que sempre há uma plateia interessada em briga e parte dos apoiadores cobra agressividade como prova de fidelidade. O dirigente que pondera pode ser acusado de fraqueza. Aquele que reconhece um acerto do outro lado corre o risco de parecer traidor.
— Forma-se um círculo de exigências recíprocas: o político oferece hostilidade, os seguidores a recompensam, e a próxima cena precisa subir o tom. A conta desse espetáculo de horrores chega depois. A eleição termina, mas permanecem as filas, a insegurança, o orçamento apertado e a escola que não ensina o suficiente. O governante descobre que os problemas não obedecem às palavras de ordem. Administrar exige escolhas, negociação e capacidade de execução. O bordão que inflamou o comício não informa de onde virá o dinheiro nem o prazo da entrega — ressalta.
Torquato diz que recuperar o plano das ideias exige perguntas concretas. Quanto custa a proposta? Quem será atendido primeiro? Qual receita a sustentará? Que resultado poderá ser cobrado? O vencedor precisa explicar consequências e limites. A clareza é uma obrigação de quem pede poder, não um favor concedido ao eleitor.
Fonte : GZH
Foto : MIGUEL SCHINCARIOL / AFP
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